Saindo para almoçar, eu percebi que precisava dar um trato nos meus sapatos sociais, hora bolas, eu paguei bem caro por eles e são extremamente confortáveis. Fiquei procurando um local para engraxá-los na Av. Paulista (estou alocado em um cliente), mas não encontrava ninguém ou um local que fizesse esse tipo de serviço.

Fui almoçar no Viena o prato que mais gosto, Strogonoff de Filé Migon, também paguei caro pelo prato, sem problemas, é o que mais gosto. Eis que indo embora me deparo com 5 senhores e suas cadeiras especializadas para o engraxe de sapatos. Perguntei o preço, um dos senhores respondeu que custava R$ 10,00. Excelente!, pensei logo. Em poucos minutos, eu poderei voltar ao escritório. O senhor começou o seu trabalho, excelente por sinal. O meu sapato ficou novo.

Na mesma hora eu peguei a minha carteira para pagá-lo, mas cadê a carteira ? Eu só estava com o cartão alimentação. Putz e agora ? O senhor todo educado respondeu que eu poderia pagar amanhã e que ele tinha um neto com a minha idade e que ele também sempre esquecia a carteira. Não dei risada, fiquei puto.

Um senhor com a idade do meu falecido avô tendo que engraxar sapatos para sustentar a família me deixou irritado, pois o meu avô faleceu sendo zelador/porteiro de um prédio na zona sul do Rio de Janeiro, o qual trabalhou por todo a sua vida, e não recebeu uma coroa de flores em seu enterro dos seus antigos patrões.

Falei o seguinte para ele: O senhor me deixa engraxar 5 sapatos para que eu pague o que lhe devo ? Ele rio e muito na hora, eu respondi que era sério, eu iria engraxar 5 sapatos para pagá-lo. Depois de algumas argumentações ele ficou convencido e duvidando se eu iria fazer aquele serviço. Posso dizer que ele ficou convencido depois que eu expliquei que fui engraxate quando moleque para poder juntar uma grana para jogar fliperama. Ele não acreditou, mas deixou um cara de 1.83m de altura em um terno caro sentar em seu banquinho improvisado e engraxar alguns pares de sapatos.

Alguns senhores que estavam próximos ouviram toda a conversa e vieram falar o que eu estava fazendo, se era alguma pegadinha ou coisa para televisão. Eu disse que eu simplesmente estava pagando uma dívida, só isso.

O primeiro senhor, bem arrumado por sinal, sentou na minha cadeira e disse que precisava de uma boa engraxada, eu falei que era para já. Recolhi as mangas, peguei o material que o dono da cadeira – não o chamo de engraxate por respeito a profissão. Já tinha deixado separado e comecei a limpeza do sapato. Para quem não sabe, a primeira coisa que você faz antes de engraxar sapatos é limpá-los, mas antes, eu coloquei as canaletas nos tornozelos do cliente para não sujar as suas meias – muito bonitas por sinal – o cara devia ter muita grana.

Já limpos, peguei a cera com os dados e passei suavemente nos sapatos do cavaleiro. O dono da cadeira ficou quieto na hora, ele percebeu que eu já tinha engraxado sapatos, depois disso, peguei a escova de pelos de crista de cavalo ou castor e os limpei antes de iniciar a lustração. Dei as duas batidas nas escoavas, elas servem para avisar ao cliente que irei começar a lustrar os seus sapatos – depois de uns 2 minutos lustrando, passei mais um pouco de cera para que ela fosse utilizada para o brilho. Novamente, eu dei os dos toques nas escovas.

Terminado essa parte, eu passei para a água. Você deve jogar um pouco de água na cera para que o brilho fique mais bonito, macete de moleque – hehehe – e por fim, passei a flanela. Pronto, faltava a última e mais importante parte, o meu aviso ao cliente que o sapato estava lustrado, mas que ele tinha que verificar se estava do jeito que queria.

Para minha felicidade a resposta foi sim. Ele pagou os R$10,00, valor combinado antes do trabalho e recuou, ficou esperando para ver se eu iria engraxar mais sapatos. Logo, surgiram algumas pessoas perguntando o que estava acontecendo, percebi devido aos diversos olhares e dedos rígidos em minha direção, falaram que tinha um louco de terno e gravata engraxando sapatos ali. Os donos das cadeiras disseram que não, que eu só estava pagando uma divida com um deles.

Na mesma hora, veio uma gargalhada e gritos dizendo que eu era palmeirense, são paulino ou santista, e estava pagando uma aposta devido ao título do Corinthians. Disse que não e que só estava ali pagando uma dívida que havia contraindo por não ter levado a minha carteira para pagar pelo trabalho de alguém.

Depois de 40 minutos e para minha sorte, eu já havia conseguido lustrar os 5 sapatos que tinha combinado com o dono da cadeira. Paguei os R$ 10,00 que estava devendo, os outros R$ 40,00 foram pagos para os outros 4 senhores, donos de cadeiras, que não tinha engraxado um único cliente devido a algazarra que havia ali devido a minha ideia. Eles perguntaram o por que daquilo ? “Simples, vocês também ajudaram no meu trabalho e merecem esse dinheiro mais do que eu.”

Pensei e lembrei de tantas coisas que a minha família e eu passamos junto nesses últimos 31 anos. O que tivemos que aturar, sofrer e penar para galgarmos um lugar só nosso. Percebi como é simples ficar do alto de uma cadeira dando coordenadas alguém está ali embaixo, fazendo o seu trabalho de forma honrada e feliz, e que tem como desejo um obrigado e o seu pagamento.

Confesso que o cheiro de graxa me fiz rir e muito por alguns instantes por ter me lembrado da felicidade que tive quando derrotei 3 estudantes do Colégio Martins quando tinha 10 anos. Os moleques eram bem mais velhos e tomaram um pau do sub-zero, meu personagem preferido no Mortal Kombat 1. Tomei dois cascudos e um soco no olho esquerdo – coisa que nunca esquecerei – por ter sido melhor do que eles, naquele momento.

Lembrei de meu avô e suas frases que explicavam que a vida é muito mais simples do que imaginamos, e por último, olhei para os senhores que estavam estendendo a sua vida profissional devido ao descaso do nosso maravilhoso governo de não saber controlar as suas contas e descontarem isso em quem mais precisa.

As últimas duas perguntas foram as mais interessantes em toda essa história, ambas foram feitas pelo último cliente, um senhor que tinha jeito de advogado. A primeira foi  “O rapaz, é difícil engraxar um sapato ou simples demais que até você consegue fazer ?” A minha resposta foi  “não, é muito complicado, complicado porque para todo o cliente que atendo, eu devo abaixar a minha cabeça e demonstrar submissão, mas terei um momento de felicidade, o seu obrigado e o meu pagamento.”

E a última pergunta foi o que eu iria dizer quando chegasse no trabalho com as mão sujas de graxa ? A minha resposta foi curta “Simples, irei perguntar aonde é o banheiro para limpá-las”.

Isso aconteceu hoje, comigo, no início de uma tarde de uma segunda-feira como uma outra qualquer.

P.S.: tive que comprar uma escova de dentes só para limpar os meus dedos – isso me lembrou das escovas usadas do meu avô.